24.1.26

Grande Angular - As boas intenções de André Ventura

Por António Barreto

Ventura promete “dar um murro na mesa”. Muito bem. Só que não diz em qual mesa, como, ao abrigo de que leis ou regras. Nem em quem dá o murro: políticos, deputados, autarcas, empresários, directores, funcionários, trabalhadores, médicos ou professores? Ou será, como habitualmente, em todos?

 

Ventura promete “acabar com a corrupção e a roubalheira”. Excelente. Só que não diz com que meios, como e com quem. Nem quem são os ladrões. Nem o que lhes faz: prende, desemprega, expulsa, deporta ou mata?

 

Ventura afirma, na terceira pessoa, que “O André Ventura vai pôr na cadeia todos os corruptos”. Até que enfim! Pena é que não diga como vai fazer isso, se manda nos juízes, se demite os magistrados e nomeia novos, se comanda as polícias, se utiliza milícias e se muda os códigos.

 

Ventura assegura ainda que, com a sua reforma da justiça, “Sócrates vai ser preso” assim como “todos os que são iguais aos Isaltinos”. Cada vez melhor. E como é que os prende? Com ou sem condenação? Manda nos juízes ou dispensa-os?

 

Ventura promete “expulsar estrangeiros”, “impedir a entrada de muitos e controlar todos”. Formidável. Mas não diz com que leis, com que meios, para onde, vindos donde? Nem nomeia os estrangeiros a expulsar: africanos, muçulmanos, indianos, nepaleses, paquistaneses, franceses, ucranianos? Nem como calcula os estrangeiros que são precisos cá e os que serão expulsos. Nem quem fará o trabalho actualmente feito por estrangeiros.

 

Ventura promete obrigar o governo a cumprir o seu programa, concretizar as suas medidas e fazer as reformas que ele pretende. Fantástico. Mas não diz com que meios, como faz isso, como obriga os governos. Como elabora e corrige os programas de governo. Como escolhe os ministros que farão o que ele prometeu. Como inscreve as suas políticas nos programas dos governos.

 

Ventura promete “rever a constituição”. Admirável. Mas não diz como. Com quem faz a maioria de dois terços para a revisão? Ou será que dispensa a maioria de dois terços? Como convence os deputados a levar a cabo a sua revisão? Quais são as suas reformas da Constituição? Poderes e eleição do Presidente? Direitos dos cidadãos? Limites à imigração? Nacionalização de empresas? Independência dos Tribunais? Direito à greve? Liberdade de expressão? Demissão de funcionários públicos? Aborto? Eutanásia? Prisão perpétua? Pena de morte?

 

Ventura diz que, se for eleito, “dirá aos governos para onde devem ir e o que devem fazer”. Magnífico. Mas não disse como o vai fazer: às quintas-feiras a despacho, pelas ruas e pelos mercados, em mensagens ao parlamento ou em discursos públicos? Nem disse o que vai dizer, nem sobre quê. Saúde, imigração, educação, horários dos transportes públicos, segurança social, desordem nas ruas, criminalidade, ilegalidade…

 

Ventura garante que vai dizer ao governo “que não pode haver urgências de saúde, designadamente maternidades, encerradas”. Esplêndido. Mas não disse como vai fazer. Reclamar em público, demitir o governo, denunciar nos jornais, telefonar aos directores de hospitais, mandar deputados fazer discursos ou despachar à quinta-feira?

 

Ventura promete zelar pela estabilidade das instituições democráticas e pelo “bom desempenho do governo”. Tranquilizador. Mas como vai fazer? Abdica do seu papel como reformador do sistema? Deixa de dar murros na mesa? Assiste às reuniões do Conselho de Ministros?

 

Ventura quer “um Presidente que conduza o governo e tome decisões”. Soberbo. Aqui está claramente a ultrapassar o estipulado na Constituição. Será esta uma das suas revisões da Constituição? Mas o mais grave é ele não dizer como o vai fazer, com quem e usando que meios?

 

Ventura, no seu papel de Presidente, vai muito mais longe, “vai querer dizer ao país como deve ser conduzido”. Maravilhoso. Como? Com que meios, através de que mecanismos? E se o povo não quiser ser conduzido? E se o governo também não?  Demite governos até encontrar o seu? Dissolve Assembleias até mandar eleger a sua?

 

Ventura promete que, se for eleito, vai “acabar com isto”! Perfeito. Muito bem pensado e melhor dito. Só que não disse o que é “isto”.

 

Ventura promete “menos impostos” e “mais saúde”. Óptimo. Mas que vai fazer para assegurar ambos objectivos? Como vai baixar os impostos? Vai despedir funcionários? Vai reduzir o Estado social? Vai aumentar a dívida?

 

Ventura anuncia ainda “um mecanismo de participação do Presidente com maior vinculatividade (sic)quando os governos falham e fracassam”. E garante que “se vencer, há uma transformação do sistema político”. Fantástico. Mas tudo o que Ventura diz, promete, garante, jura, estipula e proclama é absolutamente vazio, oco, sem meios, sem objectivos, sem regras nem leis. E perigoso.

 

Pode um governo manter-se calado, neutro e mudo diante de uma eleição presidencial? Provavelmente, é a melhor solução. Não é acertado comprometer-se com um quando um Presidente pode ter de tratar com vários governos e parlamentos. É possível que o Primeiro-ministro Luís Montenegro tenha optado pelo melhor comportamento. Talvez a solução de um Primeiro ministro não se comprometer com um candidato seja uma boa leitura da Constituição implícita.

 

Mas um partido, designadamente o partido do governo, não se pode nem deve manter neutro e mudo diante de uma eleição presidencial. Tanto com um candidato seu ou com outro a apoiar, como é o caso. O comportamento do PSD, como primeiro partido português e como partido do governo, é inadmissível e deslocado. É timorato e medroso. É irresponsável e divisório.

 

Pior ainda, o comportamento do Presidente do primeiro partido, que também é Primeiro-ministro, deve ser o de tomar partido, de optar, de ajudar a escolher e de se comprometer. O gesto de Luís Montenegro, presidente do PSD, foi errado e inaceitável. É sinal e retrato de uma triste covardia de quem não corre riscos. Resulta de um raciocínio calculista e medíocre. Ele que tinha tomado partido na primeira volta, foge da segunda porque o eleitorado não o seguiu. É um erro estratégico de que ele próprio pagará os custos e os defeitos. É um contributo para a conflitualidade dentro do PSD. É um sinal de fraqueza. É um estímulo aos partidos e forças não democráticas. É um mau exemplo para a democracia. É mais um passo de empobrecimento cultural democrático.

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Público, 24.1.2026

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17.1.26

Grande Angular - O doce sabor da liberdade

Por António Barreto

Em dia de eleições, as ruas da minha cidade são diferentes. Mais doces, mais tranquilas. Anda-se a pé. Pára-se na rua a conversar. Toda a gente se cumprimenta. Não creio que a minha rua seja diferente das outras. Por todo o sítio, no campo e na cidade, o clima deve ser o mesmo.

 

Com alegria ou desencanto. Com esperança ou resignação. Sentindo calor no peito pelo candidato preferido ou tão só a secura pelo mal menor, lá estaremos, de cartão de cidadão na mão à espera de o trocar por um boletim de voto, a dar um sinal certo: voto, logo existo.

 

As pessoas, novos e velhos, pais e filhos, amigos e colegas, passeiam nas ruas de modo diferente. Há sempre uns apressados, à espera de almoço. Mas a maior parte vai votar com a serenidade de ter a certeza de que o seu voto vale alguma coisa, de que não há pressas e de que a democracia somos nós.

 

As eleições não são toda a democracia. Mas é ali que começa. As eleições não são a liberdade, mas é por ali que esta passa. A liberdade é muito mais do que a democracia, mas é ali que tudo nasce.

 

Pode à democracia faltar liberdade, igualdade e justiça, mas tudo tem origem ali, naquele gesto. Pode a liberdade ser incompleta, inculta e iníqua, mas é o voto que marca o princípio.

 

O voto não é tudo. Longe disso. Sem liberdade de expressão, sem justiça e sem Estado de direito, o voto é uma farsa, um ritual enganador e uma fraude. Certo. Mas, sem voto, nada é verdade. Sem voto livre, não há democracia.

 

Podemos estar enganados. Pode o mundo actual não corresponder ao que desejamos. É provável que nunca, nestes últimos oitenta anos, tenha havido tantos perigos e tantas ameaças. Não é errado pensar que a democracia tenha falhado muito, nos traga tão zangados e não tenha cumprido desejos e promessas. Mas tantos de nós sabem que é ali que tudo começa, a esperança em particular.

 

Já outros, tantos outros, utilizaram a mesma expressão, “o doce sabor a liberdade”, mas esta nunca é excessiva ou enganosa. É até possível que o voto sirva para designar quem não tem estima pela liberdade, mesmo quem queira condicionar a democracia, mas, no fim de contas, será mais uma vez no voto que confiamos.

 

É verdade que o voto, como as consciências e os sentimentos, pode ser condicionado. A classe e o partido, o sindicato e a igreja, a região e a família, podem influenciar a nossa decisão. Tal como também podem fazê-lo pessoas, instituições e empresas. Mas, em última instância, no momento da verdade, é o individuo, o cidadão e o seu voto que decidem.

 

É também certo que o nosso voto pode eleger delinquentes e antidemocratas, belicistas e totalitários. Pode acontecer. Podemo-nos enganar. Podemos ser ludibriados por quem nos surpreenderá depois. Mas nunca deixaremos de pensar que é o voto a melhor arma para corrigir os nossos próprios erros. Ou antes, não há boas armas que não incluam o voto. E se houver, por necessidade absoluta, será novamente o voto que terminará a tarefa de repor liberdades.

 

Os portugueses têm uma excepcional experiência. Sem direitos durante décadas, sem voto responsável e livre, assistiram ao fim e ao declínio dos déspotas e da guerra. Não foi o voto que fez isso, foi a força libertadora das armas dos militares. A que se juntaram as vozes populares e os movimentos sociais. Mas nada se completou, nada se consolidou, sem que o voto fizesse o que faltava fazer: eleger uma Constituinte, um Parlamento, um Presidente e um Governo. Nessa caminhada, perigos esforçados tentaram impedir as liberdades e condicionar a democracia. Os militares acudiram de novo, tal como movimentos populares e instituições. Mas novamente foi o voto a repor a liberdade.

 

As últimas décadas, em Portugal e no mundo, assistiram a um desenvolvimento notável das liberdades e da democracia. E da paz. Quase duas centenas de países adquiriram a sua independência. O comunismo soviético ruiu. Os grandes impérios dominadores foram eliminados. O apartheid foi condenado. Em todo essa evolução, o voto desempenhou sempre um papel. Muitas vezes com sinceridade, outras com a fantasia dos ditadores, que mesmo não tolerando a liberdade, não deixaram de prestar hipócrita vassalagem à democracia.

 

Quem teve o privilégio de viver os últimos tempos, o quase último século de história do mundo e das sociedades, viu o enorme progresso registado. Foram décadas de paz, foi tempo de educação e cultura, foi uma nova era de saúde, sempre com o voto como origem, ou meio e instrumento, ou finalidade. Apesar de muitas falhas, mau grado muita miséria, não obstante guerras e opressões, o balanço destas décadas é formidável. E o voto esteve sempre presente. Geralmente a sério e com verdade. Muitas vezes como aparência e fingimento. Verdade é que até os que não o apreciam têm necessidade de mostrar que o cultivam.

 

Este longo período de progresso e de paz acabou. Há guerra em quase todos os continentes. A balança de poderes no mundo está a refazer-se, a força e a arma pesam, o dinheiro e o poder ordenam, o voto pouco ou nada participa. Quase todas as grandes e muito grandes potências não se preocupam com o voto. E já nem fingem. Até a América, o grande garante, nestas últimas décadas, da liberdade, do direito e do voto, parece destinada a deixar esse seu papel. O seu presidente, eleito pelo voto, declarou há dias que “não precisava de direito internacional para nada”. Que o seu “poder só era limitado pela sua própria moral”. E que o único constrangimento ao seu poder e à sua acção era o seu próprio espírito. Há quase um século que nunca, no Ocidente ou no resto do mundo, ninguém teve o delírio totalitário tão claro e explícito como este. Não é apenas a crueldade imperialista russa ou a autoridade totalitária chinesa que ameaçam o mundo e o voto. Não são apenas as incuráveis ditaduras africanas, asiáticas e latino-americanas que combatem o voto e a liberdade. É também a arbitrariedade imperialista americana que condena a liberdade e a paz.

 

Os tempos contemporâneos são férteis em falta de respeito pelo voto. Quem o recebe ou por ele é designado depressa esquece ou não cuida do que tem de ser feito. Mesmo com voto genuíno, o desconforto e o desapego crescem no mundo porque os poderes estabelecidos não cumprem ou fazem mal o seu dever. Nestes factos, o voto tem responsabilidade, pois também se engana ou descrê. Assim é que o desinteresse é um dos piores inimigos do voto e da democracia. E a indiferença o pior inimigo da liberdade.

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Público, 17.1.2026

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10.1.26

Grande Angular - Presidenciais e política

Por António Barreto

Os melhores mandatos dos Presidentes Soares e Marcelo foram os seus primeiros, aqueles em que se esforçaram por dar, ao Parlamento e ao governo, as melhores condições de estabilidade e cooperação. O que pareceu ser o seu entendimento das funções presidenciais, apoiar as instituições democráticas, os grupos parlamentares eleitos e o governo legítimo de maioria absoluta, teve real êxito. Tais governos e tais mandatos ficaram na história como modelos de estabilidade e cooperação. Ver Presidentes de um lado apoiar governos de outro fica na memória.

 

Já conhecemos outras experiências. Presidentes que lutaram contra maiorias parlamentares ou que tentaram impedir governos minoritários. Presidentes que demitiram governos sem justa causa ou que promoveram outros com ainda menos justos motivos. Presidentes que apoiaram governos por seu próprio interesse ou que dissolveram parlamentos sem razão. Sem falar nos governos de uma cor que tudo fizeram para “secar” os presidentes de outra. É assim, dado que o catálogo de funções, direitos e deveres do nosso semipresidencialismo é vago e equívoco. Facilmente a interpretação e o capricho se podem substituir à regra. O importante é notar que, além de causas marcadamente idiossincráticas, estes mandos e desmandos têm razões políticas institucionais de carácter geral, não relativas a políticas sociais e outras de natureza sectorial.

 

Esta campanha foi um verdadeiro mostruário de desejos inconfessáveis, de promessas impossíveis de cumprir e de atropelos constitucionais pouco recomendáveis. Uns prometeram “pactos” para tudo e para nada, desvirtuando o espírito parlamentar da democracia. Todos defenderam a ideia de convencer o governo a fazer qualquer coisa, quem sabe mesmo o propósito de mandar nos governos. Quase todos fizeram campanha a pensar nos seus partidos. Ou na sua pessoa. Houve mesmo quem prometesse “dar murros na mesa” ou “mudar isto tudo”. 

 

Recordemos as grandes funções abstractas, como a independência nacional, a representação da República, a unidade do Estado, o funcionamento das instituições, o comando das Forças Armadas e a estabilidade do governo. Nenhuma delas supõe uma acção consistente e continuada do Presidente nas áreas da Segurança Social e da Educação, na organização da Saúde e dos Tribunais, nos programas económicos e culturais. Pois muito bem: foram estes, e não aqueles, os problemas e os temas que constituíram os principais pontos de debate desta campanha eleitoral. A Saúde e as ambulâncias foram questões muito especialmente tratadas. É verdade que se trata de assuntos sérios, mas também é certo que os Presidentes nada têm a ver com isso. Também as leis laborais foram temas actuais, assim como a Segurança Social e os vistos de imigração. Mais uma vez, nada disso pertence à esfera de acção e de preocupação do Presidente da República. “Pactos” interpartidários e parlamentares para a justiça, a saúde, a segurança, as relações laborais e a imigração foram igualmente referidos com energia, apesar de, ou talvez por isso mesmo, não serem parte integrante das funções presidenciais.

 

Em certo sentido, esta campanha eleitoral parece ter sido feita do outro lado de lá do espelho, em terras de Alice. Ou num mundo “distópico”, para não dizer de fantasia pessimista. Discutir, nos comícios ou nos ecrãs de televisão, os modos de combate aos incêndios, os métodos de organização dos bombeiros ou as condições de acesso aos vistos para estrangeiros, é de total inutilidade. Pior ainda, é uma operação de ludíbrio pela qual se diz aos eleitores que vão fazer o que não podem e que vão tentar o que não devem. Mas que, finalmente, vão esquecer na primeira oportunidade.

 

O mundo actual, ameaçador, perigoso e inseguro, exige que o futuro Presidente assuma compromissos. A União Europeia, em queda e enfraquecimento, pede que os soberanos se empenhem e que se definam novos horizontes. As possíveis novas necessidades de despesas colossais com a defesa nacional esperam por convicções claras e responsabilidade histórica. As linhas mestras da política demográfica e de nacionalidade implicam uma visão da representação nacional e da unidade do Estado. Esperava-se, para estas questões, um esclarecimento comprometido. Debalde.

 

Portugal não pesa muito nas relações internacionais. Sem riqueza nem dimensão, sem população nem economia, sem armas nem defesa, os compromissos portugueses e as convicções dos órgãos de soberania têm pouco efeito. Mas têm algum. O suficiente para dever existir e ser anunciados com clareza. E para que tenhamos uma voz junto dos nossos aliados. Não se pode ou não se deve esperar que Portugal se limite a seguir o bando, a inscrever-se na lista dos “eu também”. A passividade e o seguidismo, em termos internacionais, parecem profícuos, mas nunca o são. Mesmo diferente da dos outros e mesmo que seja necessário mudar, a afirmação da vontade nacional é sempre vantajosa e exemplar. E não é aceitável que, em temas tão importantes, o futuro Presidente recorra ao malabarismo e ao improviso, ao seu capricho, para seu proveito. E não é apenas por causa do estrangeiro que um Estado e um Presidente se devem pronunciar e comprometer: é sobretudo por causa dos seus concidadãos.

 

Qual é o espírito dos candidatos relativamente à composição, estrutura e respaldo parlamentar do governo? Qual o pensamento de cada um? Favorece os governos maioritários? Vive bem com os minoritários? Em qualquer dos casos, desempenha um papel activo? É capaz de demitir um governo com apoio parlamentar maioritário? Considera possível ou provável que o Presidente exija maioria parlamentar para dar posse a um governo? Qual a sua atitude diante das especiais responsabilidades presidenciais nos casos da justiça, da defesa, dos compromissos internacionais e da comunidade de língua portuguesa?

 

A uma semana das eleições, relativamente à maioria destes temas, foram poucos ou nenhuns os que se pronunciaram e comprometeram. E se respostas houve, foi geralmente um festival de lugares-comuns e vacuidades. Se tivermos em conta com o facto, inescapável, de o próximo Presidente exercer o seu mandato, durante um certo prazo, com um governo sem apoio parlamentar, torna-se ainda mais evidente a necessidade de conhecermos os seus compromissos.

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Público, 10.1.2026

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5.1.26

Pelo 21.º Aniversário do “Sorumbático”

Por António Barreto 

Há muitos, muitos anos, já nem sei quantos, o Carlos Medina Ribeiro escreveu a convidar-me para colaborar no Sorumbático. Seja publicando artigos que tinham aparecido nos jornais, seja escrevendo novos originais. E também abria a porta a publicar fotografias, com ou sem legendas desenvolvidas.


Tudo me pareceu entusiasmante e formidável. A amabilidade do convite. A modernidade de um “Blogue”, que eu mal conhecia. A lista de colaboradores. A novidade de um meio de comunicação rápido e de grande capacidade de audiência. Disse logo que sim. Era a minha “estreia” num dispositivo deste tipo. Entrei numa nova era…


Os “Blogues” tinham começado em meados anos 1990, demorei algum tempo a conhecer. Mas em meados da primeira década de 2000, já eram mais de 100 milhões de “blogues” no mundo inteiro! Nunca deixei de me surpreender com a rapidez de expansão de todos estes meios e dispositivos.


A minha colaboração no Sorumbático, desde então, incluiu todos os artigos semanais que fui publicando no Público e no Diário de Notícias. Alguns artigos escritos especialmente. Fotografias da minha autoria, com legendas maiores ou menores, umas já publicadas no Diário de Notícias, outras inéditas.


Não consigo fazer as contas, o Carlos saberá. Mas foram muitas centenas de artigos e de fotografias publicadas neste Blogue, que me recebeu e acolheu com amabilidade e eficácia. Felicito o Carlos Medina Ribeiro pela sua iniciativa e pela sua insistência, mas sobretudo agradeço-lhe a hospitalidade e o acolhimento.


É curioso verificar que os “Blogues” já são hoje clássicos, técnicas do passado. Tal como os jornais e as revistas, já pertencem a outras eras. Os Insta-isto e Insta-aquilo e os Face-aqueloutro, além de muitos outros ainda mais modernos, mais rápidos e mais simples infestam hoje as redes e o espaço público. E tenho a certeza que acabam por influenciar negativamente o modo de escrever, a maneira de pensar, o estilo de publicar e o conteúdo disso tudo. Por isso continuo fiel ao jornal e ao “Blogue”, nada ligando ao resto das ferramentas. Gosto de pensar devagar. De escrever com cuidado. De argumentar. De explicar. De interrogar. De duvidar. Eis actividades reservadas para os jornais e os blogues.


Obrigado Carlos. Parabéns Carlos.

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Hoje, 21º ANIVERSÁRIO do "Sorumbático"

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3.1.26

Grande Angular - Falta de respeito

Por António Barreto

que se passa com os boletins de voto para as eleições presidenciais é literalmente desesperante. É impossível aceitar e ainda mais difícil compreender. Os boletins vão incluir catorze candidatos (14) mas só onze (11) são válidos. Os três (3) restantes não foram admitidos, mas foram à mesma impressos, com nome e fotografia. O que se passa é do domínio do delírio. Poderão encontrar-se milhares de explicações, justificações e desculpas. Que as leis são confusas. Que os regulamentos são burocráticos. Que existe conflito entre as instituições responsáveis, Governo, Parlamento, Administração Eleitoral, CNE (Comissão Nacional de Eleições), TC (Tribunal constitucional) e transportadores dos boletins (TAP, PSP, GNR, CP, etc.). Que todos os prazos de recurso devem ser respeitados. Que ao fim de semana as instituições não funcionam. Que os candidatos mentiram de propósito. Que há candidaturas a brincar. Que uns candidatos já sabiam que não seriam qualificados, mas quiseram criar confusão. Que não é situação anormal, dado que pode acontecer que um candidato se retire, desista ou morra. Que já ocorreu em muitos países. Que os recursos, em democracia, são essenciais. Que é necessário dispor de prazos suficientes para analisar centenas ou milhares de assinaturas e respectivas credenciais. Que é preciso muito tempo para distribuir os boletins de voto pelas freguesias, câmaras, embaixadas e consulados. Que já não falta muito para o dia das eleições. Que é necessário respeitar os eleitores de Fornos de Algodres, de Timor, das ilhas Sandwich e do Havai e, por isso, já não há tempo para corrigir. Que foi preciso proceder desta maneira a fim de assegurar o voto antecipado e dos deslocados em viagem.

 

Já há também quem diga que este assunto não tem qualquer espécie de importância até porque, em Portugal, já quase não há analfabetos, toda a gente sabe quem é quem, os portugueses são perfeitamente capazes de escolher e de compreender o boletim de voto. Em pouca palavras, já não é como antigamente. Hoje todos sabem e percebem. Por isso, toda a gente verá que há candidatos para votar e candidatos para esquecer.

 

Outro argumento sublinha o facto de, em qualquer momento, poder um candidato desistir, que é aliás o que uns pedem a outros. Se assim for, haverá “buracos” no boletim, isto é, candidatos que deixaram de o ser. De igual modo, podem candidatos morrer ou ser presos durante a campanha eleitoral e lá teremos novamente uma opção de voto inútil. Tod a gente percebe isso, dizem.

 

Desculpas de mau pagador e argumentos esfarrapados não faltam. Todos pouco convincentes. Todos desadequados. O mais frequente argumento dos responsáveis, o dos prazos, cai por terra quando se sabe que a segunda volta tem de ser organizada em poucos dias.  A verdade é só uma: os serviços da Administração Pública, em particular os que devem cuidar do processo democrático, portaram-se mal. Fizeram asneira.  Foram incompetentes. Estão preocupados consigo, não com os eleitores. Ocupam-se dos processos jurídicos, não dos direitos das pessoas. Dão mais importância à letra da burocracia do que à realidade. Revelaram que não respeitam os direitos dos cidadãos. Demonstraram que a qualidade da democracia lhes é indiferente.

 

É simplesmente inconcebível que, para votar na eleição de um órgão de soberania, se admita que há uns candidatos que não são, há umas pessoas a mais e que não deviam estar lá. É inaceitável que a Administração Eleitoral e restantes serviços públicos e respectivos poderes políticos não tenham previsto estas situações. Não tenham corrigido o calendário do processo eleitoral. Não tenham rectificado as leis e os regulamentos. Não tenham anulado os boletins e mandado imprimir outros.

 

Mas há mais no que toca ao respeito pela democracia. O Presidente da República, no exercício dos seus poderes, convocou uma reunião do Conselho de Estado. Trata-se de órgão político de consulta do chefe de Estado. Será esta a sua última reunião, após dez anos de mandatos. Deste organismo fazem parte cinco conselheiros designados pela Assembleia da República para a duração de uma legislatura. Estes conselheiros não foram eleitos por esta legislatura. Os seus membros já deveriam ter sido substituídos, pois pertencem à legislatura anterior. O que o Parlamento não fez. Um (Pedro Nuno Santos, ex. líder do PS) já disse que não iria à reunião, pois não se sentia suficientemente legitimado e já não é líder do partido que representava. Por incúria, esquecimento, desfaçatez, manobra política ou indiferença, os representantes da Assembleia não foram eleitos, sendo que se espera tal há mais de meio ano! Além disso, um conselheiro eleito pelo parlamento (Francisco Pinto Balsemão) morreu e também não foi substituído. O que faz com que um Parlamento não cumpra os seus deveres a tempo e horas? O que leva os partidos a protelar decisões simples, mas muito importantes para o bom funcionamento das instituições? Por que motivos um Parlamento e meia dúzia de partidos ou grupos parlamentares aceitam faltar aos seus deveres, não cumprir as suas funções e, diante das exigências da democracia, assobiar para o lado?

 

Acontece ainda que dois conselheiros de Estado são candidatos à presidência da República. Luis Marques Mendes, conselheiro nomeado pelo Presidente e André Ventura, eleito pelo parlamento. O caso de André Ventura é aliás interessante. Trata-se do candidato anti-sistema, como ele próprio se classifica, mas é actualmente o político que mais utiliza as potencialidades do sistema: Deputado à Assembleia da República, presidente de partido parlamentar, candidato à Presidência da República, candidato a Primeiro Ministro nas últimas eleições legislativas e membro do Conselho de Estado.  Da parte destes dois conselheiros, na sua qualidade de candidatos, seria um gesto de cortesia e de elegância democrática escusarem-se e não comparecerem na reunião. Em vez disso, já confirmaram a sua presença. Em conclusão: os representantes da antiga legislatura não se sentem incomodados por estarem fora de prazo. Os partidos parlamentares têm algum motivo ou desculpa para esta situação anormal? Não percebem que este não cumprimento de deveres é sempre mal visto pelos eleitores e incompreendido pelos cidadãos?

 

A confecção das listas, com falsos candidatos, configura uma situação de ilegalidade e de, provavelmente, inconstitucionalidade. A não eleição de membros do Conselho de Estado também. País feliz este onde parece não haver incómodo para ninguém.

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Público, 3.1.2026

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27.12.25

Grande Angular - O murro na mesa de André Ventura

Por António Barreto

Na Europa, nas últimas seis ou sete décadas, há ou já houve dezenas de André Venturas. Uns não passaram da cepa torta. Outros foram fugaz faísca ou breve relâmpago. Poucos, muito poucos chegaram a um patamar de existência consistente. Talvez nenhum tenha vencido ou conseguido pesar decisivamente na vida pública dos seus países. Ou antes: pesar, pesaram, mas nenhum marcou e definiu a vida do seu país. Veremos onde chega o “nosso” Ventura e seu Chega. Será uma versão folclórica dessa experiência? Ou fonte de nova política e de novos valores? Ficar-se-á pela caricatura ou chegará a ser alguém? Ele é inteligente e bom actor. Mas os outros também eram.

 

O aparecimento simultâneo, em tantos países, destes vociferantes tem origens semelhantes e razão comum. São sempre personagens que interpretam, da mesma maneira, o mal-estar púbico. Só que, às vezes, muitas vezes, a democracia e a liberdade têm remédio. Ou então o mal-estar não é suficiente e o artista não é bom. As ideias, os gestos e o élan destes personagens ou porta-vozes são simples. O que está não presta. Há muitas coisas que não se percebem. Há sempre gato escondido. Os políticos governam-se e não governam o país. Quem manda mente e rouba. Na verdade, em Portugal e em quase toda a Europa, assim como noutros paradeiros, isto é, nos países democráticos, o mal-estar é elevado. Os defeitos das democracias são muitas vezes comuns. A incompetência dos dirigentes democratas é partilhada e tem origem parecida. As falhas dos sistemas democráticos são iguais ou semelhantes. Por isso, as vozes de Ventura e seus semelhantes são qualquer coisa mais do que palavras ao vento.

 

Onde Ventura acerta, tal como tantos outros, é na percepção das deficiências e das crises do mundo democrático. Visíveis e sentidas em Portugal e na Espanha, nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha, na Grécia ou na Alemanha. Quer isto dizer que as causas do aparecimento dos populistas e das trombetas do protesto são idênticas e muito parecidas em países democráticos. A enumeração pode ser longa. A esclerose dos interesses estabelecidos. A satisfação dos instalados, sejam eles da situação ou da oposição. O contentamento dos favorecidos e o azedume ou a raiva dos esquecidos. A desigualdade social quase promovida a benefício. A ilimitada virtude da riqueza pessoal e a exibição pornográfica da fortuna. O desprezo pelos pobres. A ignorância dos problemas das imigrações. A exploração desenfreada dos trabalhadores ilegais. A cedência das nações perante o cosmopolitismo. A luta entre os mitos da supremacia do privado e do primado do público. O recurso crescente ao lugar-comum, ao cliché e à banalidade, com esvaziamento cultural e moral do discurso político. Poderíamos prosseguir nesta lista. Certo é que a sua conjugação no tempo e nos espaços das democracias tem sido uma ameaça feroz para as liberdades. A ascensão dos Estados autoritários e das ditaduras em África, na Ásia, no Próximo-Oriente, na Rússia ou na China acrescenta e confirma a crise das democracias. Os profissionais do protesto, os populistas e os demagogos do mundo democrático têm aqui terreno fértil.

 

O tom e o teor da expressão dos demagogos são iguais ou semelhantes nos países democráticos. O vocabulário político de André Ventura é reduzido, mas consistente, como convém. “Todos bandidos”. “Trafulhas”. “Uma pouca vergonha”. São algumas das expressões mais usadas e que, pretende ele, definem os tempos que vivemos. Não há problema que não seja por causa dos “ladrões” e dos “corruptos”. Por causa dos “vigaristas”, não há decisão justa e patriótica que consiga vingar. Por isso, há que recorrer aos grandes meios, às soluções radicais. À democracia enquanto ela for útil e dê votos ao protesto. A outras soluções quando a democracia não for suficiente. 

 

O mais interessante da retórica recente de André Ventura é “o murro na mesa”. Convencido de que o gesto, a expressão e a atitude são eficazes, utiliza aquele murro com frequência. Constituição e sua revisão? Murro na mesa! Declínio dos sistemas de saúde e de educação? Murro na mesa! Imigrantes e nacionalidade? Murro na mesa! Corrupção e roubalheira? Murro na mesa! Como ninguém lhe pergunta o que é isso de murro na mesa, o autor fica satisfeito com a expressão e feliz com os efeitos produzidos. Não necessita estudar, nem aprender. Não é preciso dialogar, nem negociar. Escusa perder tempo a formular uma política, encontrar meios, definir estratégias e objectivos e preparar decisões. Depois se verá. Para já, um murro na mesa alegra os convertidos, atrai os inocentes e convence quem não sabe. Um murro na mesa resolve os problemas dos atrasos nas filas de espera, dos partos em ambulâncias, dos imigrantes ilegais, da criminalidade, da droga, dos subsídios indevidos e da aldrabice na segurança social. Até resolverá os impasses dos governos e as dificuldades de revisão constitucional.

 

Não se pense que esta é uma característica de alguém que é incompetente e preguiçoso. Não. O murro na mesa de André Ventura é concebido para isso mesmo: lançar a desconfiança sobre todos os outros; abrir as portas a qualquer solução que se venha a revelar necessária; fazer depender de si todas as decisões e todos os gestos políticos. Mais ainda: preparar a opinião pública para todos os passos futuros, democráticos ou não, autoritários ou não, legais ou não. Constituição, Parlamento, Presidência da República, Tribunais, Administração Pública e códigos legais ficarão dependentes da sua vontade, dos seus interesses e do murro na mesa.

 

Nos países em que os sistemas de liberdade conseguem resposta inteligente e solidária, eficiente e com identidade, os demagogos têm encontrado obstáculos sérios e não vingam. Noutros casos, como em Portugal, não sabemos ainda. Nem sabemos se o murro na mesa dá cabo da liberdade ou se limita a partir a mesa. Ou a quebrar a mão de Ventura.

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Público, 27.12.2025

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20.12.25

Grande Angular - Praga ou maldição

Por António Barreto

Todos os dias há mais um episódio. Uma dedução fiscal inesperada. Um emprego fácil e oportuno. Um desconto conveniente no IMI. Um financiamento europeu. Carro de serviço para as compras lá de casa. Empresa em nome da mulher. Acções em nome dos filhos. Quotas em nome dos sogros. Prédio em nome do marido. Assunção de custos pessoais por associação de inquilinos ou de proprietários. Filantropia louvável e imprevisível. Nomeações por amizade e alegada competência. Gasto por conveniência urgente de serviço. Dispensado de visto por interesse nacional. Ajuste directo por motivos de premência e utilidade pública. Demissão por restruturação de serviço ou mudança de nome do instituto. Ajudante ou conselheiro nomeado por confiança política. Director designado por necessidade pública absoluta. Vendas de acções e de quotas a familiares. Doações apressadas de bens. Empresas sem pessoal, mas com actividades lucrativas. Rendimentos não declarados ao abrigo de segredos comerciais. Avenças indevidas e luvas por consultas, durante o exercício de funções. Origem secreta de rendimentos por respeito à privacidade de terceiros. Pareceres feitos por um, assinados por outro e subscritos por outro ainda. Nomes de empréstimo em companhias. Dinheiro “vivo” ou líquido que não deixa traço. Presentes de casamento sem factura para filhos ou sobrinhos. Viagens pagas por entidades fictícias. Cartões de crédito por empresa interposta. Data de construção de edifício inventada por conveniência fiscal. Avenças disfarçadas contemporâneas de exercício de cargos públicos. Doações em numerário por estranhas razões e heranças familiares oportunas. Funções exclusivas emparelhadas com actividades sombrias. Rendimentos com título de despesas de função. Acesso à escola ou faculdade a título de quota de admissão por razões extraordinárias. Colaboração familiar em gabinetes de consultoria, em agências de comunicação e em comissões de avaliação. Actividade partidária em grupos de missão, de trabalho, de estudo ou de estratégia. Nomeações para “Observatórios” de tudo e coisa nenhuma. Remunerações em liquidez, em desconto fiscal ou em dedução contributiva. Autorizações de construção, reparação e restauro em regime de excepção diante do PDM. Alvará comercial inesperado e fora das regras públicas. Publicidade oficial em órgãos de comunicação. Legislação especial para regular os “vistos dourados”. Endereços de conveniência para aproveitar as ajudas de custo para certas funções. Viagens fantasma, deslocações de fantasia e itinerários assombrados que justifiquem despesas de função e ajudas de custo. Horas extraordinárias e muito imaginativas em serviços públicos para justificar gratificações indevidas. Vendas preparadas de património público. Privatizações maquilhadas e embelezadas. Concursos com fotografia de candidatos inevitáveis. Deslocações oficiais em forma de gratificação e recompensa.

 

É este o catálogo? Não. Longe disso. Só uma amostra do que se faz todos os dias. Dos mil e um passes legais, sempre legítimos, públicos, conhecidos, admitidos por funcionários, aceites pela opinião e pelos magistrados, que constituem o mais emaranhado tecido de legalidades e processos aceites ao serviço de interesses pessoais e de grupo, razoavelmente ilegítimos e muito enviesados. “Muito limpo nas suas porcarias”, dizia alguém a propósito de quem sabia como se fazia. Trabalho meticuloso e esmerado, quase nunca deixando “rabos de palha”. A nossa vida pública é em parte feita disso. De um rendilhado fabuloso de procedimentos e escapatórias, de alçapões e alavancas, sempre legais, sempre prontos para justificar ou fundamentar interesses. De um emaranhado tecido de truques e armadilhas capazes de tudo permitir e tudo encorajar, sem deixar vestígio de ilegalidade ou sombra de pecado.

 

É este tecido prodigioso, este labirinto mágico, que substitui a velha “cunha” portuguesa, ditosa glória da ditadura, mas vício inconveniente da democracia. Uma legislação abundante, tropical e farfalhuda, um código de procedimentos misterioso e labiríntico, protegem os autores e utilizadores destes dispositivos. O simples nome de família, o empenho, a palavrinha e o recado já não bastam nem chegam. Eram os que valiam no século passado. Noutros tempos. Em número, em montantes e em dimensão, os factos têm novas exigências. Daí, só a legalidade imaginativa e a legitimidade preparada permitirem a modernização destes gestos e actos. E a transparência, que se transformou em opaco biombo.

 

Aviões, construções, pontes, telefones, celulose, estaleiros, água, electricidade, barragens, gasolinas, petróleos e tanto mais serviram para negócio e garantia, para troca e rendimento. Foi preciso, até hoje, tratar de tudo com toda a legalidade e toda a minúcia de que só advogados são capazes. Para que tudo seja claro e transparente, à prova de fogo e de lei. 

 

Portugal é provavelmente o país da Europa com mais processos, arguições, pronúncias e prescrições de Primeiros-ministros, ministros, secretários de Estado, directores-gerais e presidentes de instituições públicas. Assim como de detenções a título preventivo ou de cumprimento de pena, por parte das mesmas personalidades. E também por processos de escutas, fugas de informação, denúncias na imprensa, averiguações, inquéritos discretos e investigações policiais e judiciárias a titulares de cargos públicos. E certamente com menos condenações. São defendidos por uma legislação complacente e adequada. São assessorados por exércitos de advogados e respectivos escritórios. São compreendidos por certos funcionários. São protegidos pelas lutas e divisões entre magistrados que tornam a justiça impotente e paralisante. São seguidos discretamente por polícias, procuradores e magistrados, de acordo com o partido, a loja, a igreja, a família e o clube. Como também podem ser injustamente acusados e investigados por curiosos magistrados. Em quase todos estes processos, quando se sabe alguma coisa, os políticos têm tendência a defender-se mal, tardiamente, a conta-gotas e com protestos de inocência ou perseguição. Mas sempre incapazes de esclarecer e informar. Reclamam inevitavelmente a sua “consciência tranquila”, sinal quase seguro de que aquela não o está.

 

É a praga do dinheiro que faz o poder. A maldição do poder que faz o dinheiro. Só a democracia nos livra de uma. Só a liberdade nos protege de outra. Mas é tão difícil!

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Público, 20.12.2025

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13.12.25

Grande Angular - Boas e más notícias

Por António Barreto

É a notícia que fica deste fim de ano. O “Economist”, prestigiada revista e importante centro de estudo e informação, publica, uma vez por ano, uma classificação do comportamento das quase quarenta economias desenvolvidas (da OCDE) no último ano.  Portugal, país do “pastel de nata”, como eles próprios referem, em português no original, ficou em primeiro lugar. Finalmente, nem que seja por um ano, Portugal é o melhor do mundo, designação mil vezes repetida a propósito de todas as coisas e nunca verdadeira. Depois de termos sido informados de tal feito, já ouvimos tudo. É merecido, é uma confirmação e ninguém faz melhor, dizem uns. Ou então, não é bem assim, faltam muitos critérios, é uma visão parcial, é só capitalismo e falta o mais importante, garantem outros. Felizmente, temos de viver com todas as opiniões. Ainda bem que é assim. Mas, para já… Parabéns aos portugueses, aos trabalhadores, aos empresários, aos gestores e ao governo…. Parece a consagração de um breve período de alguns anos durante os quais foi possível melhorar o crescimento, a inflação, o produto, o investimento, o emprego e a exportação. Assim os portugueses consigam manter o ritmo e progredir. Há muitos anos que precisávamos disto.

 

Boa notícia também é a do balanço da pobreza em Portugal, válido para 2024. O INE (Instituto Nacional de Estatística) e Carlos Farinha Rodrigues publicaram e comentaram os dados do inquérito anual às condições de vida e do rendimento. A “taxa de pobreza” ou a percentagem de pessoas a viverem em risco de pobreza passou de perto de 16% para 15%, atingindo o seu valor mais baixo dos últimos trinta anos! Acrescente-se que a taxa de risco de pobreza diminui para cerca de metade com a inclusão das transferências sociais (reforma, pensões, saúde, família, etc.). Tudo isto merece análise pormenorizada, mas os valores mais gerais são estes. Será preciso prestar atenção às condições de habitação (em degradação acentuada) e à pobreza infantil (em risco de crescimento). Como importa não generalizar estupidamente, como seja, por exemplo, assegurar que a qualidade de vida dos portugueses melhorou significativamente. Mas o que é certo é que esta enorme chaga da sociedade, que é a persistente pobreza, teve uma diminuição importante. E que o indicador de desigualdade, outra ferida profunda na população portuguesa, melhorou também. 

 

Má notícia foi a greve geral e sobretudo as reacções, designadamente as do governo. As avaliações e as estimativas raiaram a loucura ou o surrealismo. A participação ou o número de grevistas situam-se entre os menos de 10% (para o governo) e os mais de 80% (para a confederação sindical). Como não há instituição isenta capaz de avaliar, ficamos dentro destes valores, de acordo com as nossas simpatias. Mas é pena que assim seja. Conhecermo-nos a nós próprios e perceber melhor os factos serão sempre bons princípios de vida. 

 

De qualquer maneira, a pior avaliação deve ser a do governo. Classificar de “inexpressiva” uma greve geral que, queiram ou não, teve realmente significado e expressão, é de uma inesquecível indigência política. Não havia comboios nem eléctricos, faltavam os autocarros, rareavam os aviões e, pela falta de movimento e de trabalho, os carros eram escassos. Muitas cirurgias e consultas foram canceladas. Numerosas escolas em todo o país encerraram. Dezenas de serviços públicos reduziram as suas actividades ou fecharam portas por falta de condições e de funcionários. Na ausência de transportes públicos, os preços dos carros de aluguer para certos trajectos aumentaram até 200% ou 300%. Pelo que se percebe, a greve foi importante e significativa. Foi também muito irregular, desde sectores privados no comércio e na indústria totalmente imunes, até aos que sofreram reduções muito significativas. Esperemos que um dia haja, para futuros casos, instituições de avaliação ou arbitragem isentas que nos informem e que impeçam o governo de se comportar como uma autocracia de outras paragens e de outros tempos.

 

Verdade é que o actual governo faz o que faz com intenção, não por estupidez ou ignorância. Pretendeu alterar de modo excessivo e desnecessário as leis laborais porque quis abrir clivagens e rupturas na sociedade. Tentou fazer leis que provocam mais instabilidade e conflito do que produzem melhoria social e económica, pois que pretende avivar a luta das classes. O governo vive obcecado com o sentido da fatalidade, com a ausência de maioria absoluta, com os riscos de dependência do Chega ou dos socialistas, com a impossibilidade de levar a cabo seu plano. O governo receia o contágio do Chega, assim como a sua mordida de morte. É verdade que o governo também quer dar poder aos seus amigos, da política e da economia. Mas esse é um desejo passageiro. O que realmente procura é a maioria absoluta, que julga poder alcançar com o conflito e o afrontamento. O governo sabe que as suas propostas de regras laborais para as mulheres, para os despedimentos e para os precários são desnecessárias e insensatas. Não procura o equilíbrio, tenta a instabilidade. É isso que quer.

 

Outro exemplo de má notícia é o persistente mau estado dos serviços públicos. Parece cada vez mais ser esta a grande chaga da sociedade actual. Toca a todos, mas agrava ainda mais a desigualdade. Castiga os mais fracos. Impede o crescimento. Aumenta a injustiça. E leva os cidadãos ao desespero. É a mais detestável praga da sociedade. Mesmo quando a economia cresce, a qualidades dos serviços baixa. Até quando a pobreza e a desigualdade diminuem, a inoperância e a ineficácia dos serviços públicos, com a respectiva injustiça, persistem, duram, alastram e desmoralizam. Filas de espera em todas as instituições públicas, atrasos nos cuidados de saúde, desordem endémica nos transportes públicos, falta de ordem e limpeza nas ruas das cidades e mau atendimento na segurança social e nos impostos. Em nenhum destes casos parece haver o mais pequeno progresso recente. Em todos estes exemplos há um agravamento constante. Nem o governo, ou governos recentes, nem as grandes autarquias, muito menos as instituições se sentem motivados e preocupados com a tortura e o tormento de todos quanto necessitam de usar os serviços públicos. 

O governo e seus conselheiros e estrategas estão convencidos de que uma pequena guerra social ou de classes pode trazer vantagens. E maioria absoluta. Por isso a vai procurar.

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Público, 13.12.2025

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8.12.25

O ESTADO NOVO DE SALAZAR, NA MEMÓRIA DE QUEM O VIVEU

Por A. M. Galopim de Carvalho


Só os portugueses e as portuguesas com mais ou menos 15 anos no dia 25 de Abril de 1974, hoje a rondarem os 65, podem ter memória crítica de algumas particularidades dos últimos estertores do Estado Novo, que viram cair. Rapazes e raparigas com menos idade, ou seja, as crianças desse tempo, talvez se lembrem de um pormenor ou outro. Só a chamada terceira idade, viveu ou sofreu um regime que nos privou de todas as formas de liberdade, torturou muitos de nós, durante quase meio século. Só os mais velhos, com 70, 80 ou mais anos, como é o meu caso, que, no 5 de Abril, somava 43 anos de vida, quase tantos, quantos os da ditadura, viveram e conheceram, em pormenor, a censura e a repressão. Só a “peste grisalha”, na deselegante expressão do deputado Carlos Peixoto do PSD, a quem o Estado garantiu uma pensão, mas, arrumou na prateleira dos esquecidos (leia-se reformados ou pensionistas), conheceu toda essa indignidade, esse sufoco.

Assim sendo, torna-se evidente que a grande maioria dos nossos adultos no activo pouco ou nada sabem de um regime que nos privou de todas as formas de liberdade, torturou muitos de nós, durante quase meio século e que caiu de podre no dia em que os cravos floresceram nas espingardas dos soldados.

É evidente que há excepções. Basta pensar no grande número de livros, dissertações, escritos diversos e outros trabalhos, da autoria de historiadores e outros estudiosos. Mas, também é evidente que o número destes portugueses, representa “uma gota de água” num universo de milhões, a quem a escola, do pós-25 de Abril, deu diplomas, mas não deu cultura.

Nos anos de 1930 e 1940, os das duas primeiras décadas de consolidação do Estado Novo, Portugal viveu em situação de ditadura, distinguindo apoiantes do novo regime e oposicionistas, de entre os quais se evidenciaram, por serem publicamente conhecidos, os que “se metiam na política”, localmente referidos como sendo “os do reviralho”. Eram os da chamada oposição democrática, consentida por Salazar, com destaque para os do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Criado em 1945, foi extinto três anos depois, em virtude do grande apoio popular que registou, agrupando muitos opositores até então isolados, entre os quais muitos intelectuais e profissionais liberais. 

Outros opositores, que quase ninguém conhecia, militando na clandestinidade pelo Partido Comunista, eram activamente perseguidos, primeiro pela PVDE (Política de Vigilância e Defesa do Estado), entre 1933 e 1945, e, depois, pela sua substituta PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). A estes opositores, os “pides” deitavam-lhes a mão, levavam-nos para Lisboa, onde os interrogavam, brutalizavam, guardando-os depois, pelo tempo que entendessem, e, em alguns casos, assassinavam. Para os localizarem e denunciarem havia os informadores, também referidos por “bufos”, uns conhecidos, outros, não, pelo que se dizia que as mesas dos Cafés, os bancos do jardim, as paredes de todo o lado e até as pedras da caçada tinham olhos e ouvidos.

Para além das restrições à liberdade e da censura, fez-se sentir, também aqui, o decreto 27 003, de 14 de Setembro de 1936, que determinava: «Para admissão a concurso nomeação efectiva ou interina, assalariamento, recondução, promoção ou acesso, comissão de serviço, concessão de diuturnidades e transferência voluntária, em relação aos lugares do estado e serviços autónomos, bem como dos corpos e corporações administrativos, é exigido o seguinte documento com assinatura reconhecida: «Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas». E, mais adiante: «Os directores e chefes dos serviços serão demitidos, reformados ou aposentados compulsivamente sempre que algum dos respectivos funcionários ou empregados professe doutrinas subversivas, e se verifique que não usaram da sua autoridade ou não informaram superiormente».

Embora na letra da Constituição de 1933, figurasse o princípio da igualdade entre cidadãos perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona-de-casa e, em quase tudo, submissa ao marido. A lei portuguesa de então, designava o marido como chefe de família, sendo reservado à mulher o governo da casa, o que se traduzia pela imposição dos trabalhos domésticos como obrigação, não tendo os mesmos direitos na educação dos filhos. Não tinha direito de voto, não podia ascender a determinadas chefias nem exercer cargos na magistratura, na diplomacia e na política. Sendo casadas, as nossas mulheres perdiam o direito a intervir nas suas propriedades, não podiam viajar para fora do país sem autorização dos maridos e não podiam trabalhar sem autorização destes. O marido podia dirigir-se ao empregador declarar não autorizar a mulher a trabalhar, o que implicava o seu imediato despedimento.

Em muitos hospitais as enfermeiras podiam ser impedidas de casar. Se casassem, podiam ser obrigadas a abandonar a profissão. As professoras tinham de pedir autorização para casar, o que só era permitido se o noivo satisfizesse determinadas condições, autorização publicada e em Diário da República O divórcio era proibido, devido ao acordo estabelecido com a Concordata de 1940, numa submissão do Estado à Igreja Católica. Assim, todas as crianças nascidas de uma nova relação, posterior casamento, eram consideradas ilegítimas, não podendo ter o nome do pai, ou seja, o do companheiro.

Na orientação ideológica antiliberal e de cariz católica do ditador, a existência da mulher confundia-se com a da família, estando-lhe reservado o espaço doméstico. A Obra das Mães pela Educação Nacional, organização feminina do Estado Novo, criada em 1936, tinha por objetivo “estimular a acção educativa da família e assegurar a cooperação entre esta e a escola nos termos da Constituição” de 1933. 

Nascida em 1912, como suplemento feminino do jornal “O Século” a revista semanal “Mulher – Modas & Bordados” dirigida nos primeiros tempos a uma pretensa elite feminina, fornecia-lhe conselhos nos domínios da moda, da culinária, das boas-maneiras e da beleza. Mostrou, porém, alguma preocupação de valorização da mulher, testemunhada pela publicação regular de sonetos da grande poetisa alentejana, Florbela Espanca (1894-1930), uma das primeiras mulheres a frequentar o Liceu Masculino André de Gouveia, onde permaneceu até 1912. Foi, porém, com Maria Lamas (1893-1983), opositora ao regime e feminista, na direcção desta revista que a luta contra a secundarização da mulher se fez sentir, não só em Évora, onde tinha ligações familiares, como no país. 

Depois de duas décadas de confronto com o liberalismo e o republicanismo, a chamada pax salazarista proporcionou à Igreja (grandemente afectada durante a Primeira República) um terreno propício à sua reimplantação e reestruturação interna. Nestes propósitos, assumiu papel fundamental o então Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), dirigindo a Igreja Católica Portuguesa durante o Estado Novo. Elevado ao cardinalato, em 1929, pelo Papa Pio XI, foi amigo íntimo e companheiro de Salazar (militante católico nos tempos da Primeira República), no Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra. 

Com a subida de Salazar ao poder, o cardeal Cerejeira pôde garantir, à Igreja, potecção, respeito e liberdade de acção. Estava na sua mente recuperar e salvaguardar os privilégios do catolicismo, como Igreja do Estado, afastados pela Primeira República, tendo tido papel fundamental na assinatura da Concordata com a Santa Sé, em 1940, na criação da Acção Católica Portuguesa, visando a “recristianização” da sociedade, na obrigatoriedade do ensino religioso, na abertura de novos seminários e casas religiosas, bem como no desenvolvimento da imprensa católica.

Em 1936, com Carneiro Pacheco no Ministério da Educação Nacional (anteriormente chamava-se da Instrução Pública), reforçara-se o papel da escola no controlo ideológico e orientação política dos alunos, na prevalência do livro único, no culto das virtudes nacionalistas e no elogio da vida modesta e rural. O fervor patriótico e o cunho religioso enquadrados na ideologia oficial do Estado Novo estavam diluídos nas matérias curriculares, nomeadamente, na Leitura, na História e na Geografia, no propósito de, a partir dos bancos da escola, então com início aos sete anos de idade, estimular estas virtudes nos homens e mulheres do futuro.

Nestes anos, o ensino obrigatório ainda terminava com o exame da 3ª classe (3º ano, como agora se diz), certificado pelo diploma do “Primeiro Grau”, exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que, o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Esta habilitação mínima vigorou até 1956. A partir de então, a escolaridade aumentou para 4 anos, apenas para os rapazes. Só quatro anos depois, esta obrigatoriedade foi decretada para as raparigas.

Na Escola Primária, a pedagogia estava na ponta da régua, versão escolar da tradicional palmatória ou menina de cinco olhos. Com algumas professoras, as reguadas estalavam nas mãos das crianças “por dá cá aquela palha”, quer por motivos de disciplina, quer por erros nos ditados, nas contas e em quaisquer outras matérias. 

À margem da Escola Primária havia as chamadas “Escolas Incompletas”, criadas em 1930, mais tarde designadas “postos escolares”, com o propósito de combater o analfabetismo no seio de populações sem escola nem condições mínimas de fixar professores. Aqui o ensino era ministrado por “regentes escolares”. Na imensamente maioria mulheres, ganhavam metade do ordenado de um professor, bastava que possuíssem a 4ª, que demonstrarem ter bom comportamento moral e adesão ao regime e eram, de preferência, oriundas dos próprios locais.

A análise histórica da documentação permite verificar que, nesses anos, os professores, diplomados pelas Escolas Normais, foram sendo substituídos pelos regentes escolares, em especial nas aldeias e na periferia das cidades. A escolaridade obrigatória, como se disse, baixara para a 3.ª classe e as crianças estavam preparadas para trabalhar e ouvir o sermão do senhor padre aos Domingos.

Salazar procurou promover uma sociedade ruralista, dando relevo à família patriarcal e católica. No discurso de Salazar, proferido em 12 de maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, em Lisboa, Salazar disse: «Oiço muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia, «Gostava que os pequenos soubessem ler para os tirar da enxada». E eu gostaria bem mais que eles dissessem: «Gostaria que os pequenos soubessem ler, para poderem tirar melhor rendimento da enxada»

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6.12.25

Grande Angular - A escuta em vez de justiça

Por António Barreto

A divulgação, pela imprensa, das escutas telefónicas efectuadas durante anos a várias pessoas, incluindo ministros, empresários e funcionários, e aos seus correspondentes (entre os quais o Primeiro-ministro) deixou, mais uma vez, uma parte da opinião pública estupefacta. Por que razão se fizeram aquelas escutas, em que condições de legalidade e por que se guardaram tanto tempo? Todas parecem triviais, sem ilegalidade e crimes aparentes, mas todas deixam transparecer um teor de conversas hediondo, ridículo e trivial. Era seguramente isso que desejava quem efectuou a “fuga” de informação: “aquela gente”, que fala assim sobre estes assuntos, não é de confiança!

 

O problema é que, cada vez mais, quem facilita as “fugas” ainda merece menos confiança e seu comportamento começa a parecer-se com crime puro e simples. Não é a sua publicação que está em causa: desde que as informações chegam, por meios legítimos, às mãos dos jornalistas, estes têm a obrigação de as publicar. O problema está em quem as entrega ou deixa correr. Esse é o responsável e o seu comportamento merece censura e castigo.

 

As escutas telefónicas continuam, assim, a dar que falar. E a retomar sempre a ideia de que o mais simples e mais seguro será simplesmente a sua condenação e a sua interdição. Ninguém está seguro, nem os próprios agentes de Justiça, de que as escutas acatam os requisitos processuais. Quem escuta quem? Porquê? Quando? Durante quanto tempo? Em que condições? O que é que se escuta? Ninguém está seguro de que quem escuta esteja pessoalmente certificado para tal. Ninguém está seguro de que determinadas escutas não vão servir para processos ilegítimos.

 

Mesmo quando são legais, o que nem sempre será o caso, os processos de escuta são cada vez mais ilegítimos e mais orientados contra pessoas e organizações. A sua utilização é evidentemente discricionária e ilegítima. Não há escuta cuja revelação ou divulgação seja legítima. Ora, não há divulgação que não seja obra de juízes, oficiais ou procuradores. Ou por sua iniciativa. Ou por sua responsabilidade, isto é, deveria ter sido mantida em segredo e alguém, ilegitimamente, a desviou: disso, juiz ou procurador são responsáveis, sejam ou não autores.

 

A escuta telefónica, sua obtenção e sua utilização transformaram-se num sucedâneo para a Justiça, ou antes, para a investigação e o processo judicial. Até já terá havido um caso em que o Primeiro-ministro se demitiu, forçado pela denúncia de prováveis escutas. Ainda hoje não se esclareceu este caso. 

 

Não tenhamos dúvidas: as escutas telefónicas são o recurso de facilidade, a sarjeta, a arma do ignóbil e o veneno da Justiça. Há quem considere a escuta telefónica (e sua circunstância que ultrapassa, muitas vezes, em legalidade e odioso, a estrita prescrição judicial) como instrumento de investigação absolutamente legítimo. Não se perdoa, e muito bem, a tortura, os “bofetões”, os “safanões, a vigilância indevida ou o interrogatório fora de horas. Mas aceita-se a escuta. E assim se fere um dos princípios mais importantes da democracia: o respeito pelos cidadãos e pelos seus direitos.

 

Procure-se nos Evangelhos ou nos gregos, em Adam Smith ou Jefferson, em 

Albert Camus ou John Rawls: a Justiça em primeiro lugar! Para George Washington, é mesmo o mais firme pilar da democracia. É tão simples quanto isso: não há democracia sem Justiça. E não há Justiça sem respeito pela lei, pela moral e pelos cidadãos.

 

Os defeitos e a incompetência da Justiça, quando existem, podem ferir a democracia. Podem transformar-se em faltas de defesa dos direitos dos cidadãos, em ausência de protecção das liberdades. Mas tudo fica muito pior, quando a Justiça, ou quem quer que seja em seu nome, abusa dos seus poderes para procurar visar certas pessoas com intenções estranhas à Justiça e às suas obrigações. Com a Justiça orientada e selectiva, tudo é possível. Ameaças políticas, privadas ou comerciais. Chantagem pessoal, extorsão, armadilha política e posse de “segredos” a fim de condicionar o comportamento de outrem. Aproveitamento político e partidário das informações e dos segredos assim recolhidos. Lucros e negócios pessoais. Tudo o que deveria ser estranho à Justiça.

 

Quais são as grandes ameaças contra a democracia? A desigualdade? A pobreza? O nacionalismo? Parece cada vez mais ser a falta de justiça. A ausência de justiça como base do bom governo. As deficiências da justiça como alicerce da liberdade. A Justiça em Portugal não é o pilar de democracia, o chão das liberdades, nem a garantia dos direitos individuais. Já não é o instrumento de lisura dos processos políticos e democráticos. Já não é um código de honra dos seus agentes para defender as liberdades e a democracia com isenção. 

 

É verdade que a Justiça portuguesa, terá à sua conta, com honra e merecimento, investigações fulcrais de factos, pessoas e organizações. Mas também é certo que, noutros casos, os atrasos, as falhas processuais, as incompetências e o enviesamento deliberado se transformaram em serviços prestados a pessoas e organizações.

 

A luta, o confronto e a rivalidade entre grandes corpos de Justiça, magistrados judiciais, magistrados do Ministério Público, oficiais de Justiça e agentes das polícias judiciárias, são tais que se sentem e presentem no espaço público: razão para mais uma falta de confiança na Justiça. 

 

É verdade que houve, aqui e ali, juízes e desembargadores postos em tribunal, arguidos e julgados ou em vias de julgamento. Veremos em que resultam, se é que resultam nalguma coisa. Mas tais factos não bastam para incensar uns corpos profissionais, de soberania, cujos comportamentos deixam a desejar. 

 

Não é a direita contra a esquerda. Nem a esquerda contra a direita. Não são os privilegiados contra os desapossados. Ou os destituídos contra os poderosos. Ou os letrados contra os incultos. Tem-se a nítida impressão de que, entre nós, são todos contra todos, cada qual com os seus casos, as suas oportunidades, os seus pontos de ataque.

 

Não haverá quem, em Portugal, queira fazer estudo sério e isento sobre a Justiça? Quem se proponha fazer, estimular ou proporcionar a elaboração de um “livro branco” sobre a Justiça? Quem se proponha estudar, seriamente, sem preconceito, os feitos e defeitos da Justiça, os seus números e os seus factos, os seus êxitos e os seus falhanços? Seria livro fascinante.

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Público, 6.12.2025

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